sexta-feira, 5 de junho de 2009

"Tenho uma visão pessimista do futuro"



Pedro Pinto é pivô da TVI e autor do romance O Último Bandeirantevai dar uma sessão de autógrafos no Continente do Loureshoping, no Sábado às 15.00. Saiba mais sobre o homem, o jornalista e o seu primeiro projecto literário.



Por que escolheu o Bandeirante entre tantas figuras que marcaram a História de Portugal?
Pedro Pinto: O último bandeirante é o último aventureiro. Desafiou a História e fez uma viagem extraordinária, desbravando território desconhecido. Fez uma viagem que coloca alguém como David Crocker a um canto, é uma das grandes figuras da nossa história, embora tenhamos sempre tendência para valorizar os descobridores. Agrada-me contar a história de um herói esquecido por quem escreveu a História do século XVII: os jesuítas

Gastou muito tempo com investigação?
Pedro Pinto:Fiquei a conhecer a personagem durante uma viagem à Amazónia. Impressionou-me a ideia de imaginar como teria sido há 400 anos, desafiando os perigos da selva, a fome e sem GPS. No segundo passo, a pesquisa, apercebi-me da complexidade geoestratégica da viagem.
Enquanto os jesuítas tentavam salvar os índios da cobiça dos mercadores portugueses e dos fazendeiros espanhóis, os exploradores misturavam-se com os índios em relações devassas.

O livro acaba por ter pouca carga erótica...

Pedro Pinto: Não concordo. Na altura, não existia amor. O papel da mulher era de grande reclusão na sociedade, viviam quase uma reclusão islâmica. A grande sexualidade existia entre os colonos e as índias que conduziam os Jesuítas ao desespero.

Sentiu dificuldades em encontrar palavras para narrar a sexualidade da época?
Pedro Pinto:Sim. Sem entrar em lugares comuns e sem entrar em descrições quase pornográficas. O que interessa é despertar o interesse do leitor, mantendo o respeito pelas personagens. Há uma linha muito ténue entre o erotismo e a pornografia que não é fácil manter.

Que factores tornaram este período possível?
Pedro Pinto:Quando Portugal tem grandes lideranças acaba por ter grandes heróis que engrandeceram a história de um império curioso, tendo em conta a pouca população e os escassos recursos, acabaram por projectar-se no mundo e construir um Império notável. A devassidão que conduziu à mestiçagem, acabando por ter um forte estratégico: sozinhos jamais conseguiríamos impor a nossa vontade sobre os ingleses, por exemplo.


Fez muita investigação para adequar a linguagem à utilizada na época?
Pedro Pinto:Não quis escrever com termos do século XVII. É inevitável usar palavras muito próprias de quem andava no mato. Procurei ser autêntico , mas evitei ser pomposo. Os bandeirantes eram gente ríspida. e muito prosaica. Escrevi um livro para ser lido hoje, sem a barreira da linguagem .

Há a tendência para os escritores transformarem a História em romance. Sente que existe saudosismo do Império perdido?
Pedro Pinto: Não fui por aí. Acho que temos personalidades extraordinárias na História de Portugal. Se fossemos Hollywood, já estariam retratadas em filme há muito tempo.. Temos heróis com uma dimensão histórica notável e que passaram ao lado da mundialização do conhecimento e da cultura.

A ideia de expansão não é mesma do período da época em que decorre a acção. Hoje, qual seria forma de Portugal se expandir?

Pedro Pinto:Não há expansão cultural sem capacidade económica. É a única forma que permite dar a conhecer a identidade dos povos e de alguns dos seus protagonistas. Fico impressionado sempre que vou a Roma, Paris ou Barcelona com a inexistência de traduções em português nos museus.Se juntarmos os 190 milhões de habitantes do Brasil aos 10 milhões de portugueses mais a comunidade lusófona, falamos de uma mancha humana substancial. Se a língua portuguesa não aparece em lado nenhum, exceptuando nas obras Fernando Pessoa e José Saramago, como queremos que o nosso passado histórico se projecte no Mundo?

Além de económica, não será também uma questão política?
Pedro Pinto:Não sei. Passa por projectar o país de forma diferente. Impressionou-me muito o que vi num jogo da FIFA – [O FIFA Euro2006, simulador de futebol]. Cada país tinha uma fotografia para ilustrar cada selecção. Portugal era representado por uma velhota vestida de negro e com bigode. É uma imagem que não existe. Ainda bem que temos figuras como Cristiano Ronaldo e o Figo para alterar essa imagem. O mau aproveitamento da nossa imagem passa por falta de capacidade económica e pela ausência de boas lideranças.

Se tivesse de escolher entre a adaptar o Ultimo Bandeiranteao cinema ou videojogo qual escolheria?
Pedro Pinto: Dado que a comunidade de Playstation2 e Playstation3 já vai nos 150 milhões, preferia que o livro fosse convertido num jogo. Era uma forma diferente de o projectar. Os jovens infelizmente não têm tendência para ler, o jogo seria uma novidade.


Escreveu sobre um tempo distante, se o desafiassem para contar a história de uma figura da actualidade nacional quem escolheria?
Pedro Pinto:Não acho piada nenhuma à actualidade nacional. Tenho uma visão pessimista do futuro. O presente é desagradável, ausente de ética, valores, heroísmo e de sentido colectivo. Não me despertam interesse.

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